Caro Junaide,
Não sei se alguma vez lhe passou pela cabeça presidir à Federação Moçambicana de Futebol. Pelo que se sabe, não tem semelhante ambição. E suspeito de que, se lhe propusessem o cargo, encontraria boas razões para continuar em Tchumene, longe das intermináveis susceptibilidades que fazem do nosso futebol uma actividade, por vezes, mais difícil de administrar do que de jogar. Escrevo-lhe precisamente por isso. Gostaria de lhe apresentar algumas razões para reconsiderar uma decisão que, do ponto de vista da sua tranquilidade pessoal, compreendo perfeitamente.
Por Rui Lamarques
TCHUMENE: MAIS DO QUE UM CLUBE, UMA OBRA
Comecemos pela Black Bulls. Não vou felicitá-lo pelos campeonatos conquistados, embora tenha motivos para se orgulhar deles. Os títulos fazem parte da vida normal de um clube e acabam, mais cedo ou mais tarde, por encontrar companhia nas derrotas. O que me interessa é outra coisa.
Em 2017, quando começou a construir a Associação Black Bulls, não existia em Tchumene aquilo que hoje podemos visitar. Os campos, os alojamentos, o ginásio, o refeitório e a estrutura de formação não surgiram por uma dessas generosidades ocasionais que costumam acompanhar o entusiasmo de um empresário pelo futebol. Foram construídos e organizados para servir uma instituição cuja actividade não se esgota na equipa principal. Investiu nas infra-estruturas, na formação e numa estrutura desportiva cuja continuidade não depende exclusivamente dos resultados de cada temporada.
UMA IDEIA ANTIGA, UMA DIMENSÃO DIFERENTE
Conhece certamente a história do Atlético Muçulmano, da Liga Muçulmana e do Vilankulo Futebol Clube. Antes de si, houve quem procurasse demonstrar que o futebol moçambicano podia encontrar no investimento privado uma alternativa à dependência dos financiadores tradicionais.
Yassin Amuji, no Vilankulo, levou essa convicção à criação de estruturas próprias e a uma experiência empresarial que merece ser recordada. Não seria justo atribuir-lhe a invenção de uma ideia que outros já tinham procurado concretizar. O que fez foi levá-la a uma dimensão que nenhum daqueles projectos parece ter alcançado. Em Tchumene, a ambição de construir uma instituição desportiva encontrou uma expressão material que não conheço em qualquer outro empreendimento privado do nosso futebol.
Sei qual é a objecção mais previsível. Dirão que dispõe de dinheiro. Não tenho razões para discordar. Mas, se bastasse possuir dinheiro para construir instituições, Moçambique estaria coberto de academias, bibliotecas, laboratórios e centros de formação. A experiência nacional recomenda alguma prudência perante essa explicação. Há fortunas que não deixam obra e obras que exigiram mais imaginação do que fortuna.
No seu caso, o que merece atenção é a decisão de aplicar recursos empresariais num projecto desportivo de longo prazo, com os encargos permanentes que semelhante escolha representa.
CONSTRUIR SEM HERDAR UMA INSTITUIÇÃO
Também conhece melhor do que eu a história dos grandes clubes moçambicanos. Muitos cresceram associados a empresas públicas, instituições estatais e outros financiadores que lhes asseguraram condições de funcionamento durante décadas. Não lhes retiro os méritos, nem ignoro as tradições que construíram.
Mas o seu projecto nasceu noutras circunstâncias. Não herdou uma instituição centenária, uma massa associativa consolidada ou o apoio histórico de uma grande empresa pública. Teve de criar uma organização e conquistar-lhe um lugar.
Ora, Junaide, é precisamente por reconhecer o que construiu que gostaria de o ver considerar uma responsabilidade maior.
FEIZAL SIDAT MERECE RECONHECIMENTO, MAS A SUCESSÃO É NECESSÁRIA
Feizal Sidat aproxima-se do fim de mais um mandato na presidência da Federação. Quando chegar a 2027, terá acumulado cerca de 16 anos no cargo. Não me encontrará entre aqueles que precisam de diminuir o seu trabalho para defender uma mudança.
Sob a sua presidência, Moçambique regressou ao Campeonato Africano das Nações, houve investimentos em infra-estruturas e o país conquistou maior presença nas estruturas continentais do futebol. Sidat merece reconhecimento. Mas não vejo por que razão esse reconhecimento nos deva obrigar a concluir que só ele pode continuar a dirigir a instituição.
A recente revisão estatutária, que poderá abrir caminho a uma nova candidatura, torna a questão ainda mais pertinente. Não pretendo discutir consigo os pormenores jurídicos de um processo cuja formalização importa acompanhar. Interessa-me uma pergunta mais simples: depois de tantos anos à frente da FMF, não seria desejável que Sidat pudesse passar a responsabilidade a outra pessoa, conservando o respeito pelo trabalho realizado?
Uma federação nunca terá todas as suas tarefas concluídas. Haverá sempre uma competição por organizar, um campo por melhorar, um projecto por financiar. A permanência de um dirigente não pode depender do desaparecimento de todos os problemas que justificaram a sua eleição.
O DESAFIO DE LEVAR TCHUMENE A TODO O PAÍS
Não lhe peço que reproduza Tchumene nas onze províncias. Seria uma proposta dispendiosa e pouco inteligente. Peço-lhe que imagine o que poderia resultar de uma federação capaz de mobilizar investidores, estabelecer parcerias técnicas, apoiar academias e formar treinadores fora dos centros onde hoje se concentram as melhores condições.
Pense num rapaz de Lichinga que não precisa de se mudar para Maputo para encontrar formação adequada. Numa rapariga de Quelimane que dispõe de oportunidades reais para desenvolver o seu talento. Num clube de Chimoio que deixa de considerar um campo de treino em boas condições um luxo inacessível.
A Black Bulls não oferece todas as respostas. Conhece, melhor do que qualquer observador, a dependência financeira que o projecto ainda mantém em relação ao seu grupo empresarial. Também sabe que administrar recursos próprios é muito diferente de gerir uma instituição nacional, sujeita a interesses contraditórios, obrigações regulamentares e escrutínio público.
Na FMF, não poderia escolher apenas os projectos que lhe parecem mais promissores. Teria de prestar atenção às associações provinciais, aos clubes com dificuldades financeiras e às comunidades que nunca beneficiaram de investimentos comparáveis aos realizados em Tchumene.
A FEDERAÇÃO NÃO PODE SER A EXTENSÃO DA BLACK BULLS
Há ainda um assunto delicado que não gostaria de deixar por tratar nesta conversa. A Black Bulls é sua obra, mas a Federação não poderia sê-lo.
Se aceitasse presidi-la, teria de estabelecer uma separação rigorosa entre os interesses do clube e as responsabilidades nacionais. Não bastaria prometer imparcialidade. Seriam necessárias regras verificáveis de prevenção de conflitos de interesses, fiscalização independente e transparência nas decisões.
Teria de aceitar que uma boa decisão da FMF pudesse beneficiar um adversário da Black Bulls e que o desenvolvimento do futebol nacional pudesse produzir clubes capazes de derrotar regularmente a equipa que fundou.
Não lhe apresento esta exigência como uma suspeita pessoal. É a condição que se deve impor a qualquer dirigente com interesses directos numa organização sujeita à autoridade da Federação. A experiência empresarial pode ser uma vantagem, mas não confere o direito de transportar interesses particulares para uma responsabilidade colectiva.
NÃO PRECISAMOS DE MAIS UM SALVADOR
Imagino que encontre nesta proposta uma quantidade considerável de inconvenientes. Em Tchumene, conhece as pessoas, os recursos disponíveis e a estrutura de decisão. Na Federação, encontraria associações provinciais com prioridades diferentes, clubes em permanente disputa e uma administração cuja complexidade dificilmente se compara à de um projecto privado.
Não lhe prometo que seria uma experiência agradável. A presidência de uma federação não é um prémio destinado a recompensar empresários bem-sucedidos.
Também não pretendo convencê-lo de que seria um presidente infalível. A história do futebol está suficientemente povoada de homens que chegaram aos cargos acompanhados de grandes expectativas para que dispensemos mais um salvador.
Se aceitasse candidatar-se, teria de apresentar um programa, explicar como financiaria as suas propostas e submeter-se ao mesmo escrutínio que qualquer outro candidato.
UMA SUCESSÃO NÃO É UM JULGAMENTO AO ANTECESSOR
O que lhe proponho é mais simples: considere a possibilidade de colocar a experiência que adquiriu na construção da Black Bulls ao serviço de uma instituição que precisa de continuar o trabalho realizado por Feizal Sidat e encontrar novos caminhos para desenvolver o futebol moçambicano.
Não vejo qualquer necessidade de transformar Sidat no seu adversário. Uma sucessão não é um julgamento ao antecessor. A Federação tem realizações que merecem ser preservadas, e quem vier a dirigi-la deverá começar por reconhecer aquilo que recebeu.
Seria uma infelicidade que o futebol moçambicano continuasse a tratar cada mudança de liderança como uma oportunidade para negar o trabalho anterior.
E SE O FUTURO DO FUTEBOL MOÇAMBICANO PASSASSE POR SI?
Quanto a si, compreendo que prefira continuar a desenvolver a Black Bulls. Ninguém tem o dever de abandonar uma obra própria para assumir um cargo que não deseja. Mas o seu desinteresse não impede que lhe façamos a pergunta.
Há experiências cuja importância ultrapassa os limites da instituição onde nasceram, e a de Tchumene merece ser considerada quando se discute o futuro da FMF.
Sei que lhe peço uma coisa difícil. Em Tchumene, pode medir o resultado das suas decisões pela evolução de uma organização que ajudou a criar. Na Federação, teria de aceitar que os frutos mais importantes do seu trabalho surgissem longe dos seus campos, entre pessoas que nunca conheceu e em clubes que não lhe devem absolutamente nada.
É precisamente essa possibilidade que me leva a escrever-lhe.
Construiu uma instituição desportiva de dimensão invulgar em Moçambique. Gostaria de saber se estaria disposto a ajudar a construir as condições para que outras possam nascer, crescer e prosperar sem depender da existência de outro Junaide Lalgy.
Pense nisso. Não precisa de me responder. Mas espero que não descarte a pergunta apenas porque nunca desejou o cargo. (LANCEMZ)











