A Lalgy Arena tem vindo a assumir o papel de sala de visitas do futebol moçambicano. Em menos de dez anos de existência, este complexo desportivo tem sido frequentemente requisitado para acolher não só os jogos oficiais da Associação Black Bulls, mas também competições nacionais e internacionais, bem como os estágios e treinos das selecções nacionais de Moçambique e de equipas visitantes, como foi recentemente o caso do Senegal. Perante esta utilização massiva e os desafios relacionados com a manutenção e a conclusão do projecto, os gestores da infraestrutura clamam por apoios do Governo e dos seus principais utilizadores, para que continue a ser a sala de visitas do futebol moçambicano.
Por Alfredo Júnior
A 5 de Setembro de 2018, foi lançada a primeira pedra para a construção do Complexo Desportivo de Tchumene, a majestosa infraestrutura desportiva que hoje leva o nome de Lalgy Arena.
Oito anos depois, o recinto apresenta-se como um dos cartões de visita do futebol moçambicano, acolhendo jogos de nível internacional, bem como treinos de clubes e selecções nacionais.
Neste mês de Setembro, e pela segunda vez na sua ainda recente história, a Lalgy Arena acolhe a Taça COSAFA Sub-20, depois de já ter recebido campeonatos nacionais das camadas de formação e jogos internacionais da Black Bulls.
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Para Hilário Madeira, secretário-geral da Federação Moçambicana de Futebol, a realização da Taça COSAFA Sub-20 neste recinto demonstra a capacidade que o país tem para acolher eventos internacionais.
“Nós recebemos essa manifestação de interesse com todo o agrado de podermos organizar aqui em Moçambique a Taça COSAFA Sub-20. A COSAFA viu que Moçambique reúne condições, neste caso, as infraestruturas da ABB, uma infraestrutura que permite que esses eventos se realizem de uma forma muito tranquila, mais segura e também com profissionalismo. Estamos a sentir que as infraestruturas da ABB reúnem condições mínimas para podermos acolher os eventos da COSAFA. Apesar do período, o timing não ter sido apropriado, tivemos um curto espaço de tempo para podermos preparar melhor, mas o país está preparado para poder acolher esses eventos. Sentimos que ainda apresentamos dificuldades nos recintos desportivos”, explicou Hilário Madeira sobre a escolha daquele recinto para acolher o evento da COSAFA pela segunda vez.
UTILIZAÇÃO MASSIVA DO RECINTO
Para Junaid Lalgy, patrono da Associação Black Bulls, proprietária do recinto, a utilização cada vez mais frequente da Lalgy Arena constitui, por um lado, um motivo de satisfação, mas, por outro, representa um desafio para os seus gestores, sobretudo porque as obras ainda decorrem e não estava previsto que, em menos de dez anos, a infraestrutura se tornasse um dos epicentros da actividade futebolística do país.
“Devo dizer que olho com alguma preocupação, preocupação porque acaba por ser uma utilização massiva para competições de carácter internacional. Se calhar, não estávamos preparados para isso. Na altura, quando foi concebido este projecto, eu sempre me referi a que era um projecto para servir o futebol, o desporto, a nível nacional, mas confesso que, nesta altura, não estava sequer a equacionar a realização de torneios internacionais, como, por exemplo, a COSAFA, e até albergar algumas selecções internacionais para virem treinar. Por isso é que eu digo que olho com alguma preocupação”, disse Lalgy.
HÁ QUALIDADE NAS INFRAESTRUTURAS DA LALGY ARENA
Para o comentador desportivo António Fumo, a utilização da Lalgy Arena como verdadeira sala de visitas do futebol nacional representa uma resposta ao investimento privado realizado numa infraestrutura desportiva, num país onde ainda são escassos recintos com estas características.
“Primeiro, acho bom, acho bom porque é uma resposta imediata ao investimento que este privado fez ou tem estado a fazer e é uma mensagem muito clara às instituições do Governo, sobretudo no que diz respeito à necessidade de infraestruturas desportivas. Somos ainda um país que tem 11 províncias, mas só estamos numa província com uma infraestrutura daquela dimensão, que é possível para qualquer entidade desportiva que se faça presente no país. É bom nesse aspecto e a mensagem que passa para o nosso Governo é de que as infraestruturas, uma vez feito o investimento nelas, podem trazer retorno. O retorno existe. Há esta fase de carência, que é o investimento, e depois já há a fase de promoção, que é a divulgação: nós temos isto, nós temos isto. A tal ligação com o turismo desportivo. Este complexo, já todo ele finalizado, com a parte hoteleira, vai trazer muito mais coisas, vai envolver o desporto, o turismo e ganhos para este investidor.”
António Fumo acrescentou:
“Ao acolher a primeira, a segunda, a terceira prova, ou este nível de prova, é uma resposta de que, sim, há capacidade de gestão, a qualidade das infraestruturas é boa e, portanto, pode continuar a ser uma aposta para o país e para qualquer clube ou qualquer federação daqui deste continente ou do mundo que queira vir para Moçambique fazer um estágio ou cumprir, participar nesses torneios competitivos.”
DESAFIOS DA MANUTENÇÃO E EXPANSÃO AGUARDAM INVESTIMENTO
Os gestores do recinto têm agora pela frente o desafio de assegurar a sua manutenção e concluir as obras em curso, de modo a elevar a categoria da Lalgy Arena e permitir que possa acolher jogos oficiais das selecções nacionais nas fases de qualificação para o Campeonato Africano das Nações ou para o Campeonato do Mundo.
“Em termos de manutenção, é bastante custoso. Como sabe, naquela zona a água é salobra, então é um grande exercício fazer a rega dos relvados, manter os relvados a qualquer nível, e não só. A própria infraestrutura requer uma manutenção constante. Paralelamente a isso, estamos ainda em processo para concluir alguns edifícios de apoio, onde teremos mais balneários e escritórios para trabalho, e também mais dois campos que estavam inicialmente projectados que, como disse, por questões de recursos financeiros, estão neste momento a um passo bastante desacelerado. Mas quero dizer que tudo isso está projectado, inclusive no terreno adjacente que temos ali, mais quatro campos de relva natural que vão dar apoio aos treinos e um hotel, digamos, de baixo ou médio custo, provavelmente de três estrelas, para albergar as equipas, ou mesmo até as selecções em estágio, onde terão todas as condições de trabalho no local, sem precisar de se deslocar. Portanto, tudo isso está projectado, mas, como disse, temos estado a fazer gradualmente, de acordo com as capacidades financeiras”, disse Lalgy.
A CASA DAS SELECÇÕES NACIONAIS
Várias equipas e selecções têm escolhido este recinto como espaço de preparação. É o caso da selecção do Senegal, que preparou em Tchumene o jogo diante de Moçambique, referente à qualificação para o CAN, numa utilização que, segundo António Fumo, deve ser devidamente capitalizada.
“Acho que a Federação, nestes dois eventos que já acolhemos — o Sub-20, que já acolhemos, e estamos a acolher o segundo agora —, tendo, digamos, sempre uma umbrela da Federação, já é uma boa ligação. Portanto, tira daqui o investimento que a gente tem, ou seja, a infraestrutura que a gente tem, coloca a nível da COSAFA, neste caso, a nível da região, mas é preciso exteriorizar e colocar a nível da CAF, ou seja, provas da CAF, do Sub-17, do Sub-20. Moçambique tem que começar a olhar para isto como uma grande possibilidade de realizar essas provas aqui em Moçambique, nestas infraestruturas e em outras que existem, para tentar maximizar. É uma forma de retorno, ou seja, de recuperar o capital investido nestas infraestruturas.”
Fumo acrescentou:
“Em relação ao papel do Governo, há várias formas de facilitar. Eu diria criar políticas que possam facilitar iniciativas do género, porque este desafio que este investidor viveu foi de forma isolada. Ele, como investidor, com certeza, vai encontrando isto ao nível dos planos que tem, como desafios, mas tem que ter sempre o suporte do Governo para olhar para isto como fase inicial.”
A selecção nacional de futebol, os Mambas, é outro utilizador frequente deste recinto. A Federação Moçambicana de Futebol tem trabalhado em parceria com o clube para elevar a categoria da infraestrutura, prestando o apoio técnico necessário para esse efeito.
“Podemos considerar a ABB um parceiro estratégico da Federação, porque eles têm infraestrutura e têm apoiado muito essas infraestruturas para as entidades da Federação. É um estudo que está a ser feito ao nível da direcção da Federação, de como poder cooperar nos outros sentidos, como fez menção nos futuros projectos da FIFA, para que também seja integrado o projecto da ABB”, disse Hilário Madeira.
CLAMOR POR APOIOS ESTATAIS E FEDERATIVOS
Perante este cenário de utilização cada vez mais intensa, a Black Bulls defende a necessidade de apoios de outro nível para melhorar e expandir a infraestrutura.
“Devíamos ter mais relvados, aliás, está projectado para isso, mas, por questões financeiras, como deve imaginar, para fazer um investimento daquela envergadura e, ao mesmo tempo, manter uma equipa profissional ao nível que está e inserida nas competições africanas, exige um esforço financeiro bastante grande. Aí é que fica muito complicado juntar essas coisas todas ao mesmo tempo, sobretudo no momento em que a própria situação económica não é das melhores e temos que começar a definir algumas prioridades.”
Lalgy prosseguiu:
“Mas acreditamos que, aos poucos, se calhar até seja o momento de clamar por apoio às instituições que fazem uso, neste caso, a própria Federação faz uso, as instituições treinam ali, jogam ali, e por que não o próprio Governo? Porque, de certa forma, acreditamos que aquilo é um espelho para o próprio país. É a nossa sala de visitas e, com todo o respeito pelos demais, todos os outros complexos não têm, digamos, aquelas condições requeridas para eventos desta natureza. Se calhar, é o momento de olharmos para aquilo não como Lalgy Arena, mas como uma sala de visitas do país e, se calhar, ajudar a melhorar e a criar melhores condições”, disse Lalgy.
O campo principal da Lalgy Arena foi projectado para uma capacidade de cerca de 12 mil espectadores. Nas instalações funciona também uma academia, um projecto que tem contribuído para a formação e evolução de jovens talentos do futebol moçambicano. (LANCEMZ)










