O futebol vive de paixão, imprevisibilidade e equilíbrio competitivo. São esses os pilares que sustentam a ligação entre clubes, adeptos e a própria integridade da competição. Porém, o calendário recentemente sorteado pela Liga Moçambicana de Futebol para o Moçambola 2026 representa uma ruptura profunda com esses princípios — e levanta sérias questões sobre a credibilidade da prova.
OPINIÃO DE ANTÓNIO FRANCISCO
Nas primeiras três jornadas, a imposição de jogos exclusivamente interregionais — impedindo que as equipas saiam das suas zonas — não é apenas uma escolha logística: é uma distorção estrutural do sorteio competitivo. Ao condicionar o calendário até à 4ª jornada, a Liga criou um campeonato artificial, onde a aleatoriedade foi sacrificada em nome de limitações organizacionais. Isto não é apenas discutível; é, no mínimo, um atentado à verdade desportiva.
O caso da ABB ilustra de forma gritante este problema. A partir da 8ª jornada, a equipa limita-se praticamente à zona Sul, enfrentando o Vilankulo FC e, em seguida, acumulando cinco jogos consecutivos em casa, intercalados com períodos de descanso. Num campeonato sério, este tipo de sequência seria considerado uma anomalia estatística. Aqui, é o resultado direto de um modelo mal concebido. Mais grave ainda será a segunda volta, onde o mesmo percurso será replicado fora de casa — obrigando a equipa a uma sequência de deslocações contínuas sem precedentes na história do futebol competitivo.
Não se trata apenas de um erro técnico; trata-se de uma falha sistémica. A própria lógica competitiva, defendida por entidades como a FIFA, assenta em princípios básicos como igualdade de circunstâncias, equilíbrio de calendário e integridade desportiva. Quando uma equipa tem vantagens estruturais em determinados momentos da época e desvantagens extremas noutros, esses princípios deixam de existir.
A justificação implícita para este modelo é ainda mais preocupante. Ao que tudo indica, a decisão de iniciar o campeonato com jornadas interregionais prende-se com a falta de recursos financeiros e a ausência de compromissos sólidos de patrocinadores. Em vez de enfrentar a realidade e reformular o modelo competitivo de forma sustentável, a Liga optou por adiar o problema — criando um calendário que tenta “ganhar tempo” até ao período do Mundial, na esperança de que algo mude.
Mas o futebol não se gere com esperanças vagas.
Este tipo de improvisação revela não só fragilidade financeira, mas também falta de visão estratégica. Um campeonato nacional não pode depender de soluções transitórias permanentes. A insistência num formato clássico, quando já se demonstrou inviável, apenas prolonga a agonia de uma competição que deveria ser o principal palco do futebol moçambicano.
E no meio de tudo isto, há um grande esquecido: o adepto.
O futebol é, acima de tudo, um fenómeno social. É no estádio, junto da sua equipa, que o adepto vive o jogo, constrói identidade e fortalece laços comunitários. Ao criar sequências desequilibradas de jogos em casa e fora, ao eliminar a regularidade das deslocações e ao tornar o calendário imprevisível e pouco apelativo, a Liga está a afastar precisamente quem sustenta o desporto.
A vantagem de jogar em casa — um dos elementos mais fundamentais do futebol — deixa de ser relevante quando é concentrada em blocos artificiais. O convívio social que o futebol promove é quebrado. E, pior ainda, a já frágil indústria do futebol moçambicano, que começava a dar sinais de recuperação, sofre mais um golpe.
O Moçambola precisa de reformas estruturais, não de remendos. Precisa de coragem para repensar o seu modelo competitivo, adaptando-o à realidade económica do país, em vez de tentar encaixar essa realidade num formato que claramente não funciona.
Porque, no final, um campeonato sem integridade não é apenas injusto — é irrelevante. (LANCEMZ)











