A Faculdade de Educação Física e Desporto da Universidade Pedagógica de Maputo (UP Maputo) foi palco de um seminário que teve Clarisse Machanguana como oradora principal. Homenageada do dia, a antiga basquetebolista partilhou o seu percurso e a sua história de vida no basquetebol nacional e internacional, com o objectivo de inspirar jovens e adolescentes para a prática desportiva.
Por Vanildo Polege
«Comecei a jogar basquetebol com seis anos de idade, sem imaginar que esse seria um bilhete de lotaria que me levaria a conquistar uma formação superior além-fronteiras. Fui para lá parar, inicialmente, para fugir aos comentários excessivos sobre a minha altura — “és muito alta” —, como se fosse uma coisa feia, como se fosse uma maldição, como se tivesse escolha. Continuei por lá, não porque fosse uma boa jogadora, mas porque, aos poucos, apercebi-me de que estar ali acrescentava-me valor e fortalecia a minha autoestima. Cada cesto que fazia elevava-me e, sobretudo, o campo de basquetebol era um espaço onde semeei amizades que perduram há mais de 40 anos. Tornou-se o meu paraíso. Aos 15 anos, fui convocada para fazer parte da selecção nacional, ao lado de grandes nomes como Esperança Sambo, Aurélia Manave e muitas outras que não menciono, mas que elevaram esta bandeira», começou por contar Machanguana.
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Machanguana abriu o livro da sua vida, partilhando também a experiência em Portugal, depois de ser chamada à selecção nacional, e explicou como chegou aos Estados Unidos da América, onde fez história como a primeira e única moçambicana a jogar na WNBA.
«Dois anos depois, fui convidada para ir a Portugal estudar e jogar. Embora tivesse assumido que falar português facilitaria o processo, aprendi rapidamente que falar a mesma língua não significa comunicar com sucesso. Dois anos depois de estar em Portugal, um grupo de treinadores americanos passava pela Europa à procura de talentos. Ouviram falar de uma atleta que estava no mesmo clube que eu, chamada Patrícia Princheira. Iam lá para vê-la jogar e, potencialmente, convidá-la para ir para os EUA. Quando me viram, perguntaram se também queria ir e eu disse que sim.»
A “Bebé Girafa”, como é carinhosamente tratada e que recentemente foi distinguida com a entrada no Hall of Fame da FIBA, partilhou igualmente a experiência de criar e gerir a sua fundação, em prol do desenvolvimento do basquetebol moçambicano, após a retirada dos campos.
«Nasceu a Fundação Clarisse Machanguana pela necessidade e obrigação que eu sentia de partilhar os instrumentos que tinha usado no meu percurso de vida, de uma maneira que fosse sustentável e transformadora. Os projectos começaram quando eu tinha 18, 20 e 23 anos. Eu era uma adulta bebé, ou seja, joguei basquetebol durante tantos anos que, quando entrei no mundo profissional, não tinha nenhuma das experiências necessárias para o trabalho que queria fazer. Mas sabia que era importante e que tinha de encontrar maneiras de o fazer. Fui fazendo, com muitos erros e também alguma resistência», concluiu a ex-atleta.
O reitor da UP Maputo, Jorge Ferrão, deixou uma palavra de apreço à antiga jogadora pela realização do seminário e afirmou que as portas da instituição que dirige estarão sempre abertas para Clarisse Machanguana.
«Esta universidade é sua universidade e poderá representar-nos onde quer que esteja. Para além das universidades americanas onde esteve, nós estamos aqui e vamos continuar a apoiá-la nos seus projectos. Eu sei o quanto tem sido difícil procurar apoios. A economia, por vezes, não permite; quer o sector público, quer também o sector desportivo e cultural, nem sempre compreendem», afirmou Ferrão.
No final, os estudantes e participantes do seminário partilharam as suas impressões sobre o encontro e mostraram-se satisfeitos com a iniciativa da UP Maputo de trazer a experiência de Clarisse Machanguana para o meio académico.
«Tendo em conta a experiência da Clarisse Machanguana, foi muito bom. Ela salientou, primeiro, que foi resiliente, porque isso já é uma boa escola para ensinar aos outros atletas que pensam que o desporto é só um mar de rosas. Ela mostrou as dificuldades que teve», disse Santos Fumo, desportista que participou no seminário.
«Foi um seminário muito enriquecedor. Nós, como estudantes do curso de Educação Física e Desporto, presenciámos o percurso de uma atleta de basquetebol a nível nacional e os ensinamentos foram muito bons, visto que nos capacitam para enfrentar a realidade do país», afirmou José Joaquim.
«O seminário que promoveram foi muito bom. É uma iniciativa muito importante como forma de promover uma educação que forme professores mais preparados e com capacidade intelectual para promover uma educação inclusiva», concluiu Miguel Jr.
(LanceMZ)











