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As “Maziviladas” do basquetebol: afinal, quem está a deixar morrer a bola ao cesto?

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Há momentos em que o silêncio deixa de ser prudência e passa a ser cumplicidade. O que está a acontecer na Federação Moçambicana de Basquetebol (FMB) já não pode ser tratado como uma simples dificuldade conjuntural, uma fase menos boa ou uma inevitável crise de tesouraria. A situação exige debate público, escrutínio institucional e, sobretudo, respostas.

OPINIÃO: ANTÓNIO FRANCISCO

O basquetebol moçambicano merece muito mais.

A pergunta que hoje se impõe é simples: onde está Paulo Mazivila?

Não se trata apenas de saber onde está fisicamente o presidente da FMB. Trata-se de saber onde está a liderança. Onde está a visão? Onde está a estratégia? Onde está a autoridade presidencial? Onde está o dirigente quando a modalidade que jurou servir vive alguns dos seus momentos mais importantes?

Os recentes play-offs da Liga Jogabets, tanto no sector masculino como no feminino, terminaram sem que o presidente da Federação tivesse, segundo relatos públicos e da própria família do basquetebol, uma presença visível nos pavilhões.

E isto não é um detalhe.

Um presidente de uma Federação não precisa de estar em todos os jogos. Mas precisa de estar onde a modalidade celebra, sofre, disputa, cresce e se reinventa. Precisa de estar perto dos atletas, dos treinadores, dos clubes, dos árbitros, dos dirigentes e dos adeptos.

Presidir a uma Federação não é apenas assinar documentos. É estar presente. É liderar. É inspirar. É prestar contas.

Paulo Mazivila chegou à FMB prometendo sustentabilidade, operacionalidade, formação, arbitragem, massificação, marketing e competição.

Prometeu revitalizar a modalidade.

Prometeu novas competições.

Prometeu maior envolvimento das associações provinciais.

Prometeu ajudar a colocar o basquetebol nacional noutro patamar.

Mas a pergunta que a família do basquetebol hoje faz é: o que aconteceu a essas promessas?

DE UMA FEDERAÇÃO COM PROBLEMAS A UMA FEDERAÇÃO SEM RUMO?

Quando Mazivila assumiu a presidência, encontrou uma Federação com dificuldades financeiras. A própria Assembleia-Geral que antecedeu a sua eleição aprovou os relatórios com reservas e registou a existência de dívidas. O passivo então reportado rondava 1,7 milhão de meticais.

Era, portanto, conhecida a necessidade de saneamento financeiro.

Era conhecida a necessidade de reorganização.

Era conhecida a necessidade de recuperar credibilidade.

Era conhecida a necessidade de construir uma Federação mais profissional.

Quase três anos depois, porém, continuam a surgir sinais preocupantes.

Em 2025, a FMB esteve confrontada com uma dívida de 15 mil dólares à FIBA África, cujo pagamento chegou a ser associado ao risco de suspensão de Moçambique das competições internacionais. A dívida foi posteriormente paga com o apoio da Primeira-Dama.

Mais grave ainda: o próprio presidente da FMB reconheceu publicamente a existência de uma dívida de aproximadamente 18 mil euros ao Sunlive Group, empresa que organizou o estágio da selecção feminina em Portugal.

E aqui surge a pergunta que ninguém deveria temer:

Como é que uma Federação que recebe apoio público e privado para preparar uma selecção nacional continua a acumular compromissos por pagar?

Em Junho de 2025, a Televisão de Moçambique noticiou que a Primeira-Dama, Gueta Chapo, mobilizou cerca de 14,229 milhões de meticais junto de parceiros para apoiar a participação da selecção feminina no AfroBasket, sendo que cerca de nove milhões já tinham entrado nos cofres da FMB.

Perante valores dessa dimensão, a sociedade tem todo o direito de perguntar:

Quanto entrou?

Quanto foi gasto?

Quanto ficou por pagar?

A quem se deve?

Porquê?

Quem autorizou as despesas?

Onde estão os relatórios financeiros detalhados?

Não são perguntas de perseguição.

São perguntas de boa governação.

O PROBLEMA NÃO É APENAS FINANCEIRO. É DE LIDERANÇA.

O mais preocupante é que a crise da FMB parece ultrapassar a dimensão financeira.

É uma crise de liderança.

É uma crise de presença.

É uma crise de comunicação.

É uma crise de confiança.

Uma Federação não pode aparecer apenas quando precisa de dinheiro para uma selecção nacional. Não pode lembrar-se dos clubes apenas quando precisa de atletas. Não pode procurar o Estado apenas quando as contas apertam.

A Federação deve existir todos os dias.

Deve desenvolver o basquetebol de formação.

Deve apoiar as associações provinciais.

Deve fortalecer os clubes.

Deve proteger os atletas.

Deve qualificar treinadores.

Deve formar árbitros.

Deve criar competições.

Deve mobilizar patrocinadores.

Deve prestar contas.

Deve defender a modalidade.

E, sobretudo, deve estar presente.

A AUSÊNCIA TAMBÉM É UMA FORMA DE GESTÃO

Há uma imagem que vale mais do que muitos relatórios: os pavilhões cheios, atletas a competir, treinadores a sofrer, famílias nas bancadas e adeptos a vibrar — e o presidente da Federação ausente.

Se confirmado, este facto não é meramente protocolar.

É simbólico.

Porque uma modalidade não se dirige exclusivamente a partir de escritórios.

O basquetebol acontece nos pavilhões.

É lá que estão os atletas.

É lá que estão os treinadores.

É lá que estão os clubes.

É lá que estão os adeptos.

É lá que se sente a pulsação da modalidade.

Um presidente que não acompanha os grandes momentos competitivos da modalidade que dirige transmite uma mensagem perigosa: a de que o basquetebol pode sobreviver sem a presença da sua própria liderança.

Mas será que pode?

QUEM TRAVA ESTAS “MAZIVILADAS”?

A expressão pode parecer provocatória, mas traduz uma inquietação legítima que começa a crescer entre os amantes da modalidade:

Quem fiscaliza a FMB?

Onde está a Inspecção do Desporto?

Onde está a Assembleia-Geral?

Onde estão as Associações Provinciais?

Onde estão os associados?

Onde está o Conselho Fiscal?

Onde está o mecanismo de prestação de contas?

Uma Federação desportiva não é propriedade pessoal do seu presidente.

O presidente é um mandatário.

O mandato pertence à modalidade.

Os recursos pertencem à instituição.

E a instituição deve responder perante os seus associados, os parceiros e, quando recebe recursos públicos ou mobilizados institucionalmente, perante a sociedade.

Por isso, a Assembleia-Geral da FMB não pode ser apenas um ritual para aprovar relatórios.

Deve ser um verdadeiro espaço de fiscalização.

Se existem dívidas, que sejam apresentadas.

Se existem receitas, que sejam demonstradas.

Se existem despesas, que sejam justificadas.

Se existem compromissos assumidos, que sejam conhecidos.

Se existem falhas de gestão, que sejam corrigidas.

NÃO SE TRATA DE “DERRUBAR” MAZIVILA. TRATA-SE DE SALVAR O BASQUETEBOL.

Há sectores da família do basquetebol que já defendem a renúncia de Paulo Mazivila.

É uma posição que deve ser respeitada, mas também discutida dentro dos mecanismos estatutários da Federação.

O essencial não é criar uma caça às bruxas.

O essencial é responder à pergunta:

A actual direcção ainda tem capacidade, legitimidade e confiança para conduzir a modalidade até ao fim do mandato?

Se tem, que o demonstre.

Que apresente resultados.

Que publique contas.

Que explique as dívidas.

Que apresente um plano.

Que aproxime a Federação dos clubes e das associações.

Que apareça nos pavilhões.

Que reconquiste a confiança da família do basquetebol.

Se não tem, então deverá ter a grandeza de reconhecer que chegou o momento de abrir espaço para novas lideranças.

Porque nenhum dirigente é maior do que a modalidade que dirige.

O BASQUETEBOL NÃO PODE MORRER DE INANIÇÃO INSTITUCIONAL

Moçambique tem uma extraordinária tradição no basquetebol feminino.

Tem atletas de referência.

Tem clubes históricos.

Tem treinadores competentes.

Tem árbitros.

Tem jovens talentos.

Tem público.

Tem paixão.

Tem história.

Tem uma modalidade que, durante décadas, colocou o nome de Moçambique no mapa do desporto africano.

Não é aceitável que essa herança seja desperdiçada por incompetência, desorganização ou ausência de liderança.

O basquetebol não precisa de presidentes de gabinete.

Precisa de dirigentes presentes.

Não precisa de discursos.

Precisa de resultados.

Não precisa de promessas.

Precisa de execução.

Não precisa de opacidade.

Precisa de transparência.

E não precisa de uma Federação moribunda.

Precisa de uma Federação viva, profissional, moderna e responsável.

A HORA DAS RESPOSTAS

Paulo Mazivila tem uma oportunidade: responder.

Responder às críticas.

Responder às dúvidas.

Responder sobre as contas.

Responder sobre as dívidas.

Responder sobre o apoio financeiro recebido.

Responder sobre os salários e compromissos pendentes, quando existam.

Responder sobre a participação e o acompanhamento das competições nacionais.

Responder sobre o plano para o basquetebol feminino e masculino.

Responder sobre o desenvolvimento provincial.

Responder sobre o futuro da modalidade.

E, acima de tudo, mostrar onde está a liderança que prometeu em 2023.

Porque o problema já não é saber se Paulo Mazivila consegue dirigir a FMB.

O problema é saber se a FMB ainda consegue sobreviver ao actual modelo de gestão.

A bola continua a saltar.

Os atletas continuam a jogar.

Os treinadores continuam a trabalhar.

Os clubes continuam a lutar.

Os adeptos continuam a acreditar.

Mas uma pergunta ecoa cada vez mais forte nos pavilhões:

Até quando?

E outra, ainda mais incómoda:

Quem vai travar estas “Maziviladas” antes que seja tarde demais?

O basquetebol moçambicano merece uma resposta.

E merece-a agora.

 

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